A periodicidade em que uma tarefa de manutenção ou inspeção deve ser executada pode ser muitas vezes polêmica. É comum o responsável por elaborar o plano de manutenção ter a tarefa de explicar porque, mesmo tendo executando uma inspeção ou manutenção periódica, a falha acontece.

Esta atividade é uma das mais complexas do seguimento e necessita alguns cuidados para a elaboração, principalmente quando abranger ativos criticos. Existem algumas metologias que buscam a tão desejada quebra zero, que sem conhecer todo o conteúdo que sustenta chegar nesse resultado, pode parecer utopia.

Um método para a elaboração de uma boa periodicidade de inspeção ou manutenção, pode ser obtida com o seguinte resumo:

  • Conhecer a função densidade de probabilidade (pdf) do item, ou seja, obter o conhecimento sobre a ocorrência da falha ao longo do tempo.
  • Identificar qual modelo estatístico melhor representa a pdf encontrada.
  • Definir qual é o risco que se deseja assumir.

É possível perceber através do resumo apresentado, a complexidade de se obter uma boa periodicidade devido à complexidade intrínseca de cada atividade. Na primeira atividade, por exemplo, é comum se deparar com a falta de histórico ou mesmo a baixa qualidade dos dados.

Na segunda atividade a escolha do modelo não adequado pode levar a conclusões erradas, neste caso já há programas de computadores que auxiliam a obtenção do modelo mais adequado.

A terceira atividade pode estar tanto envolvidas a riscos relacionados a saúde, segurança e meio ambiente quanto a riscos financeiros. Os riscos financeiros podem apresentar uma certa dificuldade de ser obtido e de serem classificados.

Mesmo realizando todas as etapas com maestria, no momento da realização da atividade de manutenção, o mantenedor pode inserir uma falha na execução. No caso de inspeção visual a falta de alguns cuidados, como descrito no artigo “Plano de inspeção visual: dicas e cuidados”, pode colocar o plano gerado em descredito. Neste ponto, o assunto se desenrolaria por páginas e mais páginas tanto que já existem diversos livros e artigos sobre os temas aqui apresentados. Para completar a dificuldade, o comportamento de um ativo pode mudar ao longo do tempo por tanto o plano também deve ser constantemente atualizado.

O objetivo deste artigo, no entanto, é comentar sobre um item que, se não observado, pode levar ao fracasso da criação da periodicidade de manutenções e inspeções, mesmo seguindo os passos descritos sem nenhum desvio. Esse item é a definição da base de tempo que será adotado para o plano.

A base de tempo significa como será mensurado o período até a falha ou entre falhas. Uma máquina que trabalha em períodos variáveis não poderá utilizar como base o período de calendário já que trabalhará de forma irregular ao longo dos dias.

Isso é um pré-requisito básico para realizar estudos de confiabilidade, mas é um erro ainda muito comum nas indústrias. A base de tempo deve ser adequada para cada situação, por exemplo, medidas por ciclos, horas trabalhadas, horas paradas (sim, horas paradas como em armazenamento de motores elétricos e bombas) ou qualquer outra forma de se medir apenas o período relevante para análise.

A data calendário é normalmente utilizada para itens que o desgaste natural é mais significante, como exemplo, proteções, para-raios, telhado, dentre outros. Também é utilizada quando o equipamento opera 24 horas por dia. Qualquer plano de manutenção ou inspeção que não siga a correta base de tempo, ficará exposta ao fator sorte.

Toda regra tem sua excessão.

Itens extremamente críticos ou de baixo custo (mas que seja necessário a aplicação de manutenção ou inspeção), podem possuir um plano superdimensionado, ou seja, a periodicidade é mais baixa do que qualquer possibilidade de falha naquele período e neste caso também se utilizada a data calendário.

Quando o custo fica mais viável, por exemplo, na programação de uma parada de vários equipamentos ou para adequação em uma rota conforme visto no artigo “Rota de inspeção e o carteiro chinês”. Desta forma o custo evitado com mão de obra e de mobilização pode compensar o superdimensionamento do plano.

Como visto a determinação da periodicidade de um plano de manutenção ou inspeção pode ser complexo. Diversos fatores interfere para a elaboração de um plano consistente e quando se chega no ideal, poderá mudar ao longo do tempo que exigirá atualizações. Alguns casos, devido à criticidade ou custo, a periodicidade ideal poderá não ser a melhor opção mas é recomendado sempre conhecê-la.